O PRIMEIRO ESPETÁCULO DO ANO

11.07.2020

Eduardo Bonito me ligou. Um convite para substituir Márcia Tiburi em uma conferência que deveria acontecer logo após a apresentação do espetáculo O Samba do Crioulo Doido, na programação Brasil Sequestrado, no Festival de la Cité, em Lausana, Suíça. Tive dois dias para me preparar e, claro, fui com o texto registrado no computador.

 

Saindo de Paris, percebo o estresse das máscaras para conter a pandemia do coronavírus. O controlador do trem, aquele que garante a segurança dos passageiros, repreende o passageiro ao meu lado: “Senhor, em duas horas de viagem, já o alertei três vezes sobre o uso da máscara. Agora, vai ganhar uma multa.” Por volta dos seus 80 anos, o senhor bufa colericamente. Porque conto esta história? Ora, porque aconteceu. Enquanto isso, fazia minhas anotações.

 

Pensei em começar minha conferência com a citação "nada mata mais um homem como ter que representar um país", de Jacques Vaché, afirmando que, hoje, no Brasil haviam 210.147.123 habitantes, porque Calixto Neto e eu estávamos fora, quer quiséssemos ou não, para fazermos nosso trabalho distantes da tensão hedionda que impera neste território desde 2018.

 

Foi no início de 2020 que Calixto esteve com Luiz de Abreu, em Salvador, para aprender O Samba do Crioulo Doido. E, claro, estudar não apenas os movimentos célebres deste trabalho — a emergência dos clichês que mortalizam o corpo negro — mas passar um tempo acompanhado por quem viu e viveu tudo o que está na cena. Antes de ir para o teatro, uma história sambou entre nós. E não é que sambou, tipo, balançou o quadril pra lá e pra cá. O samba nos ensina a desviar das pedras. E, muitas vezes, a cantar pedras.

 

O espetáculo começa. Vejo Luiz em cena, no corpo de Calixto. É impossível deixar de fazer esta associação. Calixto abre a roda para deixar Luiz trabalhar. É no corpo de Calixto que Luiz agora ginga.

 

Impossível não lembrar de quando vi a estreia deste trabalho. Impossível não lembrar que foi um banco que pagou pela produção deste Samba. Qual banco, neste mundo de hoje, hastearia a bandeira por detrás? Qual instituição brasileira, nos dias de hoje, se colocaria à frente deste discurso, de pé, com os braços pousados ao lado do corpo? Talvez, estejam surgindo, ou ainda existam. Esta pergunta não pretende afirmar o seu contrário, esta pergunta quer ouvir respostas. Basta de cinismo.

 

Lembro de Sonia Sobral, ao deixar a sala de teatro do Itaú Cultural, de todos os amigos, amigas e eu festejarmos juntos algo que não conhecíamos ainda no Brasil: um corpo preto, coreógrafo, dissecando a estética do racismo no epicentro elitista da dança contemporânea brasileira — dança que pensa, escreve, discursa, preocupada com suas viagens para a Europa. Pois então, o que fazer com o que havíamos visto? Deixa arder.

 

Lembro, tive a chance de dividir noites com Luiz ao redor do Brasil e na Europa com a dupla Transobjeto & O Samba do Crioulo Doido. Haviam decidido que ambas as peças, coladas uma a outra, consecutivamente, dariam cara a tapa ao projeto de descolonização e antirracismo no mundo artístico brasileiro, vulgo, contemporâneo. Caetano Veloso e Elza Soares já estiveram juntos em Língua. Ambos estariam novamente em cena, corporados por Luiz e por mim. Um preto e um branco, dois viados.

 

Engraçado que quando apresentamos fora do Brasil, Transobjeto era de difícil compreensão para muitos europeus. Sem dúvida, a descolonização é uma questão obscura, o racismo está na ponta da língua.

 

No Brasil, terminávamos a apresentação com festa: eu bêbado, ele incorporado. Juntos, saíamos para jantar e conversar, como na Belle Époque dos festivais brasileiros, quando a cultura fazia parte de um programa político do governo — um programa que não misturava o sono da tarde com o sono da noite, como no governo atual. Tinha sempre o after.

 

Oh, que saudades que tenho da aurora da minha vida.

 

Luiz tem aura dourada. Quem convive ou conviveu com ele reconhece. Calixto foi aquele que recebeu a coroa. Contraluz, entrou em cena, ao som de uma batida constante — como a do coração — movimentado por aquilo que aprendeu. Há uma tensão furiosa em cada gesto, do menor ao mais expressivo. Seus braços guiam o trânsito do corpo. Ao longo de bons minutos em vulto, descobrimos Calixto, iluminado pelo corte seco de uma luz frontal. O rei está nu. E ele sabe disso. Calixto explora cada dobra de seu corpo, como se tivesse incomodado por alguma coisa que vê. Não havendo opção, debocha, para se desviar daquilo que nós público não vemos. Uma canção francesa cai do céu, e aquele corpo se junta a ela, como numa receita de Cassoulet, a feijoada francesa. Claro, tudo veio de lá. Chega o momento de saudação à bandeira, e ele desfila, como se fosse sua extensão. Dança a saudade do país onde nasceu. Apenas a bandeira sobrou em suas mãos. O Brasil perdeu a graça. Está afônico, indigesto, sem ritmo. Ao fim do espetáculo, como quando o sol se põe às 18 horas, quando todos os seres da natureza se recolhem, Hora da Ave Maria, Calixto samba. Retorno à escuridão.

 

Enquanto Calixto dançava, eu lembrava. Quando estávamos em trânsito, Luiz e eu recitávamos Mário de Andrade: “vaca brava dá leite se quiser”. Brincávamos de Macunaíma, exportando leite para a Europa. Uma vez, ele me disse: “sabe que o povo da dança acha que somos inimigas?” Respondi: “vamos fazer uma selfie e postar nossa cara nas mídias sociais com a legenda: Marlene & Emilinha.”

 

Lembro do que assisti em Lausana nesta última quinta-feira, 9 de julho, e do que tentei falar para o público reduzido do festival, devido às medidas de segurança (mesmo que o teatro tivesse sido montado ao ar livre.) Para entrar, cada pessoa deveria deixar seu nome completo, telefone e e-mail com o recepcionista.

 

Ao fim da peça, fui convidado para subir ao palco de Calixto, digo, de Luiz, ou melhor, do Samba. Não dá para furar essa barreira sem perder a voz. E foi exatamente o que aconteceu. Era como se tivesse perdido conexão com as coisas que havia escrito, como se elas não interessassem mais­ — nem pra mim, nem para as entidades que, agora, suspendiam aquele lugar. Você até pode imaginar que o tom de minha conversa esteja descambando para o místico, mas eu estava lá, eu vi, e você pode também ver se quiser. Senão, entendo que a ciência pode nomear esses eventos como distração.

 

Entrei no palco para falar de La Bête, ou seja, do Brasil sequestrado ao qual faço parte e que, Calixto e tantos outros também fazem. Mas nada saiu como o programado porque, antes, dançamos um samba. E o samba, como disse, chuta a poeira para o ar. Decidi, então, falar sobre o Samba, sobre a força de Calixto em se deixar habitar pela escrita de uma outra pessoa.

 

É de pai para filho que a história se repete.

 

Eu precisava abrir o computador para encontrar o que havia perdido: as palavras. Conectar informação e emoção em tempo real é para poucos, e eu não sou um deles. Ainda mais quando tenho na minha frente uma língua que aprendi na rua, de forma intuitiva, em que os erros viraram forma. Evitei pedir desculpas, mas pedi licença, e acredito que nem precisava ter agido desta forma porque o público estava atento não só às palavras, mas às ações de meu corpo imantado. É assim. No meio da arte, corpo e palavra são bons amigos das emoções. Ambos as significam e permitem também serem lidos cada qual na sua função. Escutar e perceber. Não deixar de fora nem um nem outro. O silêncio, o gaguejar, o perder-se fazem parte, igualmente, do gênero discursivo.

 

Terminei a intervenção com um buraco no estômago. Acredito que esta sensação todas e todos compreendem. Uns e outros vieram conversar comigo. Comprovei.

 

Saímos do teatro e fomos para uma festa. Nos olhos brilhantes de Calixto, já não corriam mais lágrimas, embora tivessem hidratado este canal que a gente não vê, mas sente que existe.

 

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