MAS CHAMA-SE NÃO
“Ele está puto porque eu estou aqui.”
Barbara Loden, Wanda
Há dias penso em Tainara Souza Santos. Penso também em 2026 sem essa jovem de 31 anos. Mãe de dois filhos, um menino de 12 anos e uma menina de 7. Ela passou a existir publicamente depois que seu ex-namorado decidiu que ela não viveria mais.
Conhecemos muitas mulheres nessa condição em 2025. Mulheres que já não podiam mais responder ao nosso muito prazer. Os jornais nos apresentavam seus restos. Diariamente. Mas, antes da notícia, a execução. Uma prática viril. De muitos homens. Tantos que, na hora da raiva, se confundem com todos. Minutos depois, lembramos que esses homens são aqueles que precisam confirmar a masculinidade pela violência. Amor e morte, como equivalentes.
Brasil, ame-o ou deixe-o. Penso nesse slogan não tão antigo enquanto penso em Tainara, mesmo que, à primeira vista, o slogan não pareça ter relação direta com sua morte. Ou talvez tenha. Mais do que parece. O slogan reclama autoridade. E a autoridade reduz o corpo do outro às próprias crenças, aos próprios valores, à própria moral.
No caso de Tainara, deixar exigiu um acerto de contas. E, para o ser autoritário, amar significa obedecer. Deixar só é permitido quando esse tipo de homem decide primeiro. Caso contrário, ele manterá seu corpo preso à ferragem de um carro. Como assinatura. Para deixar claro que, com ele, é assim. Um ser como ele não se abandona. Apenas se é abandonada.
Tainara deixou Douglas Silva e agora Tainara ocupa a minha cabeça. Ocupa a cabeça de quem traz para o corpo a agonia do outro e sofre com o que lhe acontece. Não como ela. Não assim. Eu e você sofremos com Tainara porque ela exerceu o direito de dizer não. Um
não sem negociação. Um não que devolve a vida a quem o diz. Um não que permite escolher com quem dividir o tempo. Um não que protege a própria alegria. E, por isso mesmo, esse não deve ser dito. Deve se tornar corpo. Tomar conta do corpo. Do próprio corpo. O não de Tainara chegou até aqui.
Não quero falar difícil. Quero apenas dizer que, no início do vídeo, registrado pela câmera de segurança, antes de Tainara ser atropelada, ela parecia feliz. Ao lado de alguém. De alguém que ela escolheu. Que bonito era Tainara feliz ao lado de alguém que ela escolheu.
Hoje ela não está mais onde disse não para estar. Tainara está naquele lugar onde muitos lutam diariamente para não estar. Alguns lutam mais. Outros apenas fazem força. Há quem não faça força nenhuma. A morte cai. Ainda é possível morrer dormindo.
De Tainara sabemos o suficiente, ela não queria ir para debaixo do carro. Estava cheia de conversa. Tinha cabelo arrumado. Um corpo pronto pra dar uma volta. Vi as imagens. Vi outras fotos. Tinha tempo pela frente. Tempo de mãe. De avó. Talvez Tainara quisesse ser avó.
Não sou mulher, vivo entre elas. Leio seus livros. Vejo seus filmes. Escuto suas músicas. Convivo com suas obras. Tenho amigas reais. Sou filho de duas mães. Uma biológica. Outra simbólica. Quando escuto o nome Tainara, penso numa dessas mulheres que frequentaria, porque Tainara sabia dizer não a quem só quer ouvir por favor.
O que sabemos hoje de Tainara é dor e ranger de dentes. Há um luto em curso. Não por conhecermos a pessoa, mas por nos reconhecermos na causa. Resta ainda encarar o que se passa na cabeça de quem reduz uma vida ao espetáculo da própria morte. Para quem foi feita a encomenda? O que se obtém ao tomar o corpo de uma mulher por um lote vazio? Esse contrato de posse não se firma com a mulher, mas com um terceiro, com uma ideia suspensa. Uma ideia que categoriza. Que autoriza a surrar, a passar por cima, como quiser. Porque tem isso, o contrato não é com a pessoa. É sobre ela. Um contrato que não explica seus motivos, mas conta com adesão. De consanguíneos, de comparsas, de uma multidão. O macho sabe, internamente, tacitamente, o que vinga do lado de fora.
É tamanha a certeza de que se pode passar por cima do outro e ignorar a câmera de segurança que se passa por cima do outro e se ignora a câmera de segurança. Alguém formalizou essa certeza. Alguém autoriza. Alguém escreve esse contrato que ninguém assina, mas todos os machos conhecem.
Acabo de ver um menino de cerca de dez anos performar no aeroporto. Tirou a jaqueta, jogou a jaqueta no chão, pisou em cima da jaqueta. Gritou com a mãe. Um grito de ordem. O menino sabia o que fazia. A mãe sabia o que recebia. O pai tomava uma caipirinha. Essa forma de comando foi aprendida em algum lugar. Resta saber se se desaprende. Ou nunca.
Francis Bebey, numa tentativa deliberada de constranger a prática viril entre seus ouvintes, compôs a canção “La Condition Masculine” [A condição masculina], lançada em 1976. Músico e intelectual camaronês, Bebey usava a música para expor os mecanismos da masculinidade prosaica: a repetição de gestos abrutalhados, a naturalização da autoridade, a pedagogia cotidiana da força. A canção aponta que esse modelo de homem é aprendido, reforçado e transmitido como norma. Não há denúncia exaltada nem moralização explícita em A condição masculina. Há exposição. E é justamente essa exposição que tenta produzir vergonha onde antes havia certeza.
No texto da canção, dito em spoken word, um homem descreve com nostalgia o tempo em que a esposa o obedecia sem resistência. A chegada da chamada condição feminina ao seu entorno imediato é apresentada como ameaça à ordem, não só doméstica. Diante da recusa da mulher em ser como foi dita a ser, o marido recorre à violência como expressão de orgulho da condição masculina, acionada quando quem deveria se submeter vira opositor.
A CONDIÇÃO MASCULINA
Tradução W.S.
Você não conhece Sizana.
Sizana é minha mulher.
Ela é minha mulher porque estamos casados há mais de dezessete anos.
Antes, ela era muito gentil.
Eu dizia: “Sizana, me dá água”,
e ela me trazia água para beber.
Água limpa, viu, muito boa.
Eu dizia: “Sizana, faça isso”,
“faça aquilo”, e ela obedecia.
E eu ficava contente, olhava tudo isso com felicidade.
Ah, eu te digo que Sizana, Sizana era uma esposa muito boa antigamente.
Só que, há alguns dias, essas pessoas aí
trouxeram para cá essa tal de condição feminina.
Parece que lá, no lugar onde eles vivem,
colocaram uma mulher num escritório
pra dar ordens aos homens.
Ei, você já ouviu uma coisa dessas?
E, desde então, todas as mulheres do nosso país falam da condição feminina.
Agora eu digo a Sizana: “me dá água”,
e ela responde apenas que, por causa da condição feminina,
eu tenho que ir buscar a água sozinho.
Eu digo: “Sizana, me dá de comer, estou com fome”,
e ela nem me escuta, hein!
Ela só fala comigo da condição feminina.
Resumindo, é preciso te dizer que minha condição masculina
ficou muito infeliz aqui.
Então eu disse a Sizana:
“Escuta, eu só conheço uma condição feminina:
a mulher obedece ao marido, faz a comida, faz filhos.
Só isso.”
Você sabe que Sizana ficou com raiva?
Ela veio falar comigo em voz alta!
Como se fosse um homem!
Eu bati nela, hein!
Ela gritou para chamar toda a aldeia.
E eu só dizia: “não grita, não grita, hein.
Você vive falando comigo da condição feminina.
Então eu também vou te mostrar hoje a condição masculina.
A condição feminina, todo dia, todo dia você me fala da condição feminina.
Eu te dou só a condição masculina.
Ei, me diz uma coisa:
a condição feminina é mesmo maior do que a condição masculina?
Outro dia, em 2025, fomos às ruas marchar o óbvio, o pacto mínimo de chão compartilhado. Mulheres precisam viver. Não se pode matar. Não se pode bater. Marchamos para lembrar que todos temos um corpo. Um só. Um corpo que dói sem distinção de gênero, raça ou classe. É isso. Somos corpo. E o corpo humano, como canta Karina Buhr, “tem a resistência perfeita. Se bate de leve, dói. Se bate de com força, mata.”
Se eu pudesse pedir algo à História, ou ainda fazer um voto de ano novo, eu não gostaria mais de conhecer mulheres por notícias como a de Tainara nos jornais. Acredito que esse desejo seja compartilhado. E sei que não apenas por mulheres, mas também por homens. Outros homens.
A atriz Maria Ribeiro me disse que o cantor João Ribeiro é sua grande esperança para o futuro do masculino. Achei justo. Ela aposta em alguém cujo relato de vida não se organiza em torno da certeza, mas do aprendizado em curso. Não fala a partir de um lugar resolvido, fala da revisão. Não se oferece como modelo acabado, mas como corpo em processo. Isso, por si só, já desloca o ser homem do seu lugar de evidência. Num tempo em que a prática viril costuma se afirmar pelo volume da voz, pela surra, pelo acelerador do carro, pela pressa do juízo e pela recusa da escuta, investir em alguém que expõe dúvidas, contradições e mudanças é apostar em outra economia da força. Não a força do comando, mas a da interrupção. Talvez Maria chame de esperança a possibilidade de um masculino que não precise se afirmar passando por cima de ninguém, que aceite compartilhar o chão sem fazer do erro um método nem da violência uma linguagem.
Mas, enquanto a prática viril se reproduz, o caso de Tainara não pode parar de circular. Não pode escorrer pelo feed até desaparecer, substituído por uma nova catástrofe, por uma nova distração, por mais uma ocupação anunciada em tempo real. Aprendemos com as mídias sociais a esquecer rápido. A abandonar assuntos decisivos na mesma velocidade com que o olhar desliza e o cérebro arquiva. O risco de hoje não é a falta de informação, mas a normalização do desaparecimento.
Tainara precisa continuar a aparecer. Seu corpo chegou ao limite final. Mas o que não se vai com sua vida é a recusa. O não que não se negocia e não pode virar lembrança é o que nós, ainda vivos, podemos executar por ela.