SANGUE DE BARATA

Faço as malas. Chego mais cedo ao aeroporto de Orly para observar o trânsito das pessoas que não se repete e se dissolve em poucos segundos. É curiosa a sensação de estar em um lugar onde um endereço fixo parece não existir.

          Entro na fila da British Airways para fazer o check-in. O atendente notifica aos passageiros que o voo irá se atrasar por 40 minutos. Pergunto sobre a conexão Londres-São Paulo. Ele me diz para voltar em 20 minutos. Compro um sanduíche, sento ao lado de 3 coreanos. Não consigo entender o que eles falam. Todos me parecem felizes. Dá para sentir.

          Termino de comer. Pego minha mala e vou em direção ao guichê para saber o que se passa com o voo. O atendente diz que a conexão será possível. Ouço, acredito, ele se desculpa. Nessa ordem. Despacho minha mala, vou para a sala de embarque. Falo com amigos por WhatsApp, escrevo e-mails que não exigem muito da cabeça. Aguardo. Respondo um questionário da British Airways por SMS:

          Um atraso como esse gera problemas constrangedores para todos.

          Eles se desculpam. Uma empresa se desculpa. Mostrar-se preocupado com o cliente alivia: o ser humano perdoa, a empresa, não.

          Entro no avião. Passo os olhos pelo jornal inglês. Desisto. Continuo a releitura de Elogio aos errantes, da Paola Berenstein. Aterrissamos no aeroporto de Heathrow. Assim que o avião para, muitos passageiros se levantam – as portas automáticas ignoram a impaciência de cada um.

Estou ao lado da janela, em uma fila com 3 poltronas. Um homem, da mesma idade que eu, está sentado na poltrona do meio, e um, mais velho que nós, no corredor. O homem da poltrona do meio se levanta rapidamente e se encurva sobre aquele que está sentado na poltrona do corredor. Sua bunda se vira para o meu lado enquanto seu peito enverga a cabeça do outro passageiro. Seus dedos abrem o compartimento das bagagens na cara daqueles que estão em pé à espera da permissão de saída.

          Deixamos o avião. Penso nos 40 minutos de atraso. Aperto o passo. No terminal 5, os sinais me dizem para ir para o portão C. Eu já estou no portão C. Desço as escadas. O trem pode nos levar para os portões A e B. O trem sai do portão C. Eu não entendo nada. Encontro uma senhora cujo destino é Sydney. Ela também está perdida. Um outro rapaz pretende pegar o voo para Buenos Aires. Ele nos pergunta qual direção deve tomar. Todos os três precisam entrar no portão C. Voltamos para os corredores da British Airways. Encontramos as aeromoças e os comissários de bordo. Eles nos apresentam um técnico local que, talvez, possa nos ajudar. Ele entra no portão C por um acesso privado e pede que o esperemos do lado de fora. A sala está vazia. Ele diz que precisamos pegar o trem em direção ao portão A para pedir orientação ao instrutor local sobre como entrar no trem de volta para o portão C, porque não conseguiremos passar pela entrada principal do portão C por onde estamos: no portão C.

          O horário de partida dos voos se aproxima. Decidimos pegar o trem até o terminal A. Um instrutor nos aborda:

          – Vocês devem sair do trem, subir as escadas rolantes para voltar ao portão C passando pelo portão A.

          Seguimos. Encontramos o balcão de recepção. Eu me aproximo, entrego a passagem para a atendente e, antes mesmo de começar a contar todo o episódio, ela me diz que o embarque para o voo BA337 está encerrado:

          – Converse com aquele senhor na outra recepção, ele está preparado para receber passageiros com problemas como o “seu”.

          Antes mesmo de ouvir a minha voz, o atendente diz boa noite, pede meu bilhete, verifica novamente as possibilidades de entrar no avião:

          – Esse voo está no horário. Não há possibilidade de chegar até o portão de embarque em 20 minutos.

          – De acordo com a British Airways do aeroporto de Orly, esse voo deveria nos esperar – respondo.

          – Não é possível que isso aconteça, senhor, esse voo está no horário.

          – Posso falar com seu superior?

          – Não.

          – O que podemos fazer é agendar o seu voo para amanhã.

          – Amanhã? A que horas?

          – Às 21h30

          Ele me apresenta outros horários de voos com longas escalas em Buenos Aires ou Rio de Janeiro.

          – Vou pegar o voo direto.

          – OK, senhor. Aqui está uma sacola com camiseta, desodorante, pasta e escova de dente, xampu, sabonete e uma estadia no hotel que o senhor terá que liberar ao meio-dia de amanhã.

          – Meio-dia?– Sim, senhor.– Vocês atrasam a minha chegada ao Brasil por 24 horas e eu ainda tenho que cooperar com vocês? Porque não podem me deixar no hotel até a hora do meu voo?

          – É o que podemos fazer, senhor.

Sangue de barata.

          Vejo minha transformação nos óculos do atendente.

          – E o que devo fazer agora?

          – Atravesse a polícia de fronteira, espere o ônibus que o levará ao hotel, e volte

amanhã. Desculpe-me, senhor, é o que podemos fazer.

          Saio do aeroporto. No meio do caminho, encontro a senhora que iria para Sydney.

Tomamos o mesmo ônibus. No trajeto para o hotel, sentamos um ao lado do outro. Ela se apresenta:

          – Sou Marli.

          Faço perguntas. Ela responde com jeito de quem gosta de contar histórias para pessoas desmoralizadas. Por volta da meia-noite, o motorista estaciona o ônibus em frente ao hotel Renaissance. Descemos. Na recepção, um rapaz nos avisa:

          – Se o senhor e a senhora quiserem jantar, terão que se apressar. O restaurante fecha às 23h, pode ser que já esteja fechado.

         Corremos para o restaurante e uma garçonete nos diz:

          – Ainda estamos abertos, mas só para vocês.

          Jantamos com a sensação de agradecimento, como se nos servissem alguma coisa

a qual não tínhamos direito. Comemos bem. E comer bem significa comer comida de restaurante e não de avião.

          Marli e eu conversamos. Ela é responsável pela parte administrativa de uma empresa. Uma vez por ano viaja por vários países. Seu rosto se modifica quando descreve os lugares para onde vai. Há momentos em que a sua sobrancelha se levanta, outros em que sua boca abre somente pelo lado esquerdo, outros ainda em que a cabeça se abaixa, e aqueles em que ela fica vermelha. (Agora, se calou). Marli tem uma filha, essa é a única informação que me dá sobre sua família. O tempo passa. Olhamos para a sobremesa enquanto ela me diz:

          – Precisamos terminar esse jantar para dormir, amanhã teremos um trem para pegar!

Esse é um ditado que só ela conhece. Marli ri por dentro e por fora. Eu rio apenas por fora, para participar.

          Seguimos para nossos quartos. Nos perdemos entre os longos corredores do primeiro andar, imaginando que estamos no segundo. Existe um traço azul, em forma de onda, pintado sobre o tapete. Ele se prolonga por toda a sua extensão e deixa Marli enjoada:

          – Esse episódio não é tão grave assim. Olho pra ele do lado de fora, como se fosse uma outra Marli, rindo de mim mesma.

          Encontramos os números de nossos quartos. Ela está aliviada. Passo a chave magnética pela porta e uma luz vermelha se ascende. A minha chave não funciona. Há um longo caminho de volta à recepção, com uma mochila que, agora, pesa mais de 8 quilos.

          Marli me pergunta:

          – Você gostaria de deixar sua mochila no meu quarto enquanto vai à recepção?

          – Não é preciso, respondo. Durma bem, amanhã teremos um trem para pegar.

          Marli carrega uma bolsa branca, veste um terno rosa, com uma capa de chuva também cor-de-rosa. Ela me olha de longe.

Essa é a última vez que a vejo.

          Levanto às 9. Tomo banho. Como coisas estranhas no café da manhã. Penso no tempo que vou precisar para digerir cada uma delas. Essa pode ser a minha última refeição. Tomo outro banho. A roupa é a mesma. Fecho minha conta no hotel. Peço indicações ao recepcionista sobre o ônibus que levará os passageiros ao terminal 5 do aeroporto de Heathrow.

          – Ele estará na porta do Renaissance em 15 minutos – responde.

          O tempo se aproxima da sensação de 8 horas de espera por um voo dentro do aeroporto.

          Entro no terminal 5. A multidão que atravessa cada um dos corredores ou que forma as filas dos restaurantes, das lojas, dos guichês se parece com a de ontem, como eu. Subo e desço a escada rolante, entro e saio das lojas, folheio um livro de autoajuda. Vou para o terceiro piso. Converso com a atendente da British Airways sobre os direitos dos viajantes mal conectados. Ela me oferece dois vouchers no valor de 10 libras: um para o almoço e o outro para o jantar. A salada do restaurante custa 9 libras e 75 centavos. Faço meu pedido e pago o restante com cartão de crédito brasileiro. O garçom me lembra:

          – Agora também podemos pagar as gorjetas online.

          Essa não era a língua que esperava falar no dia 3 de setembro de 2015.

          Faço um selfie na frente de uma tenda na qual a pintura de um soldado inglês nos diz: “Sejam bem-vindos ao aeroporto de Heathrow”.

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