FINITA

 

Finita é uma peça sem registro. Ela aconteceu no Convento da Arrábida, em Portugal, no ano de 2003, no colóquio Maria Gabriela Llansol e a Escrita Contemporânea. O convite surgiu de Lúcia Castello Branco, João Barrento, Maria Etelvina Santos e da própria Llansol. O colóquio foi preparado ao longo de muitos anos, no desejo de que alguns legentes Llansonianos pudessem se encontrar. Éramos cerca de 30 pessoas. É possível que eu tenha sido o mais novo leitor entre elas. Não foi permitida a entrada da imprensa, nem de visitantes. Estivemos, todos, no convento por cinco dias. E, durante esses dias, o companheiro de Llansol, o Augusto – como eu o conheci no Diário 2 Finita – estava internado em um hospital, em estado muito grave. Algum tempo depois, ele morreu. Ele também era um dos que tinha se dedicado ao encontro, mas não chegou a vivê-lo. Segundo João Barrento, o Augusto fez a grande viagem. Para mim, ele não deixou de ser escrita. Acordar em um lugar que o cineasta Manoel de Oliveira também nos presenteou com o filme O Convento, em 1995, era fazer parte de um espaço onde o tempo estava suspenso. No dia da apresentação de Finita, eu preparei a capela. Limpei o chão, cheio de sepulturas. A apresentação aconteceria logo à noite. Não era possível fugir para fora dali. Enquanto isso, ouvia a fuga inacabada de Bach. Era a música que iria dançar. A capela ficou cheia. Nós nos conhecíamos e eu me sentia íntimo daquele lugar. Enquanto dançava minha leitura de Finita, eu olhava para Llansol e ela desviava seu olhar. Então, ela voltava a me olhar novamente, perseguindo meu gesto como um traço. Acredito que ela queria dizer que a escrita desliza ao longo da superfície porque “o amor espera-nos à sós”.

 

 

 

Finita est une pièce dont il n’existe pas d’enregistrement. Elle a été présentée au Couvent de l’Arrábida, au Portugal, en 2003, dans le colloque de Maria Gabriela Llansol sur l’Écriture Contemporaine. L’invitation est venue de Lúcia Castello Branco, João Barrento, Maria Etelvina Santos ainsi que de Llansol elle même. Le colloque a été préparé pendant de nombreuses années, dans le but de faire se rencontrer certains lecteurs Llansonians. Nous étions environ 30. Il est possible que j’aie été le plus jeune lecteur parmi eux. La venue de la presse et des visiteurs a été interdite. Nous étions, tous, à l’intérieur du couvent pendant cinq jours. Et, pendant ces cinq jours, le compagnon de Llansol, Augusto – que j’avais découvert dans le Deuxième Journal de Llansol, Finita – était hospitalisé, dans un état très grave. Quelque temps plus tard, il est mort. Il était aussi l'un de ceux qui s’était consacré à l’organisation de cette rencontre, mais n'a pas pu la vivre. Selon João Barrento, Augusto a fait le grand voyage. Pour moi, il n'a jamais cessé d’être une écriture. Se réveiller dans un endroit où le cinéaste Manoel de Oliveira nous présentait le film Le Couvent, en 1995, était comme faire partie d'un espace dans lequel le temps se suspendait. Le jour de la présentation de Finita, j’ai préparé la chapelle. J'ai nettoyé le sol, entre les tombes. La rencontre avait lieu le soir. Il n'a été pas possible de s’enfuir. Pendant ce temps, j’écoutais la fugue inachevée de Bach. C’était la musique sur laquelle j’allais danser. La chapelle s’est remplie. Nous nous connaissions tous et ce lieu m’était familier. Pendant que je dansais ma lecture de Finita, je regardais Llansol qui détournait son regard. Elle s’est ensuite tournée vers moi, poursuivant mon geste comme une trace. Je crois qu'elle voulait dire que l'écriture glisse au long de la surface, parce que « l'amour, seul, nous attend ».

 

 

Finite is a piece without registering. It happened in the Convent of Arrabida in Portugal in 2003, at the Maria Gabriela Llansol and Contemporary Writing colloquium. The invitation came from Lucia Castello Branco, João Barrento, Maria Etelvina Santos and from Llansol herself. This was a colloquium that was prepared for many years, in the hope that some Llansonian readers could meet. There were around 30 of us. I may have been the youngest reader among them. Neither the press nor visitors were allowed to come in. We were all in the monastery for five days. And during those days, the partner of Llansol, Augusto – as I had known him in the Finite Diaries 2 – was interned in a hospital in a very serious condition. Some time later he died. He was also one of those who had devoted himself to the meeting, but did not live to experience it. According to João Barrento, Augusto made the long journey. To me, he never stopped being writing. Waking up in a place where the filmmaker Manoel de Oliveira had also given us The Convent, in 1995, was meant to be part of an area in which time was suspended. On the day of Finite presentation, I prepared the chapel. I cleaned the floor; some dead were buried there. The meeting would happen shortly in the evening. And I could not run out of that place. I heard the Unfinished Fugue by Bach. It was the music I was going to dance. The chapel was full. We all knew each other. And I already felt close to that place. During my performing of Finite I looked at Llansol and she looked away. Then she looked in my direction again, chasing the gesture as a continuous line. I think she meant that writing glides along the surface, because “love, alone, waits for us”.

06/12/2003 Ed. Revista Ler, número 61, Lisboa / João Barrento Do negro à luz todo azul floresce