
LARISSA: O OUTRO LADO DE ANITTA
“Nossos segredos precisam ser revelados
para que possam ser entendidos
como problemas da humanidade.”
Fernanda Carlos Borges
Maria Ribeiro e eu nos reconhecemos como amigos. E, como todo bom amigo, ela gosta de apresentar seus amigos uns aos outros. Às vezes por semelhança, outras por contraste. O critério é o risco da conversa. Mesmo os aparentemente dissonantes têm lugar, sobretudo quando o que se coloca em discussão é a própria amizade.
Enquanto escrevo, Pharoah Sanders grita “Love is everywhere” (“O amor está em toda parte”) pelas minhas caixas de som. Esse grito se mistura a outros. Na rua. Dentro da minha cabeça. É de onde este texto sai. O que segue aqui não é um argumento, é uma experiência. Vi, e conto para você. Quem viu Maria e sua amiga fui eu. Você as verá à sua maneira, se quiser. A diferença está apenas no lugar de onde se escolhe ver.
Dias atrás, assisti a Larissa: o outro lado de Anitta, documentário com roteiro de Maria Ribeiro. O foco, como o próprio título indica, não é Anitta, ícone pop mundial, mas Larissa, a mulher. Aquela que milhares conhecem pelas coreografias e pelos hits cede espaço para essa que quase ninguém vê, não porque seja secreta, mas por estar protegida por uma economia de exposição que Anitta aprendeu a manejar.
No argumento do filme, não há técnica de aproximação gradual. O documentário já começa na intimidade, para quem conhece e para quem não conhece a artista por trás da celebridade. Não digo isso por familiaridade pessoal, o próprio filme anuncia, desde o início, que é Larissa quem nos recebe. E no seu aniversário.
Enquanto celebridades despejam sua intimidade em vídeos curtos nas redes sociais, Anitta opta por um gesto mais elaborado. Sua intimidade, chamada Larissa, vira documentário e se apresenta como um gesto de reflexão. Sobre a artista. E, por extensão, sobre os artistas. Aquilo que seus seguidores esperam é entregue, mas em regime de ficção. Entre Anitta, Larissa, o vivido e o registrado, a intimidade se articula na distância.
O roteiro expõe a tensão entre o íntimo e o público. A mulher em casa, a artista em cena. E para estruturar essa sobreposição, dois nomes para um único corpo. Letras repetidas as unem.
Larissa com dois esses.
Anitta com dois tês.
Em diversos momentos, o documentário opta por mostrar o que, na lógica da imagem pública, seria considerado inconveniente. Afinal, espera-se do artista um êxito contínuo. Ali, a alternância entre registros oscila. A alegria surge e se recolhe. E permanece alegria. Mesmo quando se recolhe.
Larissa parece ter nascido na alegria. Para Anitta, dá trabalho. A primeira encontra alegria no mar, na família. A segunda, no palco, nas câmeras. Mar e palco convivem no mesmo corpo e é esse mesmo corpo que decide quando uma ou outra onda deve quebrar.
Talvez seja disso que se trate o documentário, confundir a alegria da cena com a que lhe antecede. Saber aproveitar. Do lugar onde estou, parece que a Anitta sabe. E Larissa também.
O documentário intercala helicópteros, aviões, hotel, casa, cenários, lojas, roupas de luxo, pijamas e camarins. A alegria parece transitar. Não se fixa. O trabalho, entende-se, depende da família que ela preserva, cultiva, protege. Há também o operador de câmera, não apenas recorrente; constante. É ele quem narra. Está em toda parte, mesmo quando não o vemos. Entre ele e Larissa, uma dúvida de amor permanece suspensa. “Como chegar em Anitta?”
Por vezes, eu me perguntei se a inversão seria possível. Larissa no palco, Anitta no colo da mãe. Do pai. Do irmão. Larissa diante das câmeras, Anitta na praia.
O que mais me interessa, e o filme aponta nessa direção, é que essa divisão não serve apenas para lidar com a fama, mas com a própria intimidade. O documentário nos mostra uma só pessoa, que opera como duas. Ou que precisa ser duas, para que a vida e a cena se sustentem. Para compartilhar o risco.
Anitta fala inglês sem sotaque, espanhol sem sotaque. Anitta fala Larissa sem sotaque, porque talvez Larissa seja também um idioma. Quando fala português, fala como uma criança que saiu de uma caixa de som. Que saiu de onde nasceu sem nunca deixar o lugar onde nasceu. Vejo Larissa falar sua língua-mãe, a língua que Anitta acessa quando precisa descansar.
Nunca juntas, mas ao mesmo tempo. Elas não se confundem. Agem separadamente. Cada qual oferece o que pode a quem as acompanha, sem sobreposição. A confusão pode atrapalhar a alegria. A da cena, a de estar viva. São duas, sim, duas forças em oposição. Vistas de fora, podem ser confundidas. Melhor não. A artista sabe quando está em cena e quando está em si. Mesmo que uma artista seja também pessoa. E vice-versa. Mas o tempo de cada uma é separado. Uma é urgente, a outra tem tempo para acontecer.
E então eu vi, como quem vê um milagre, o saber se questionar. Porque eu vi, senhoras e senhores, eu vi Larissa. Ou talvez tenha visto Anitta. Uma no plano. A outra, fora de campo.