© Maxime Guedaly

a s s o m b r a ç ã o
Ametonyo Silva
01.04.2026
«Au milieu du chemin il y avait une pierre
il y avait une pierre au milieu du chemin
il y avait une pierre
au milieu du chemin il y avait une pierre.»
Carlos Drummond de Andrade
Ce qui nous attend, c’est une capsule pleine de fumée, deux enceintes placées face à face et une musique brève, de la durée exacte d’un post destiné à circuler puis à disparaître. La musique semble fabriquée par machine, faite de cette matière électronique qui n’annonce plus seulement un appareil, mais un mode de reconnaissance. Des sons qui confirment de quel monde on fait partie. Qui les écoute sait, sans avoir besoin d’y penser, qu’il habite le même monde technique. C’est peut-être là un signe net du présent, d’une époque où jusqu’au stimulus nous parvient déjà comme le souvenir d’une ancienne excitation.
Entre une enceinte et l’autre, il y a une personne. D’abord, elle apparaît presque comme la pierre de Carlos Drummond de Andrade. Celle qui interrompt le passage pour, ensuite, devenir le chemin lui-même. Mais la comparaison tient peu de temps. La pierre résiste par inertie. Ce corps, au contraire, cède. Il se meut parce que quelque chose le pousse. Il s’use parce que le temps ne tombe plus sur lui comme durée, mais comme injonction.
Ce qui se tient devant nous n’a rien d’extraordinaire, du moins à première vue. Baskets, short, t-shirt. Barbe, cheveux longs, peau blanche. Cela ressemble à un homme. De loin, le corps s’offre comme une unité. De près, cette unité échoue. D’autres unités surgissent. De nombreux gestes, de nombreuses inscriptions, de nombreux détritus se disputent l’image de ce corps. Le regard, alors, ne reconnaît plus une figure, mais un champ de signes.
Il saute. Il saute selon le temps que la musique lui accorde. Il saute dans la mesure exacte du rythme, comme si le corps avait accepté, l’espace d’un instant, l’administration extérieure de son énergie. Il va d’un côté à l’autre. Mais il ne s’agit pas d’un aller-retour, comme dans un trajet qui s’achèverait là où il a commencé. Il s’agit d’aller et venir jusqu’à ce que le schéma même entre droite et gauche se révèle insuffisant. Le trajet stéréo, imposé par les enceintes, organise l’espace ; le corps, pourtant, tôt ou tard, décroche. Quand cela arrive, nous n’assistons plus à un mouvement obéissant, mais à l’apparition d’une issue. Le corps lui-même devenu issue.
La personne abandonne la ligne, déborde la capsule, continue à sauter. Certains sautent avec elle. Les uns de l’intérieur, dans leur mémoire musculaire. Les autres, de fait, se mettent en mouvement. Pas autant qu’elle, mais assez pour que le spectacle cesse d’être une simple observation et se mette à opérer comme une contagion. La scène ne se limite pas à montrer un corps ; elle redistribue des impulsions entre celui qui voit et ce qui est vu. Ici, toute réception est déjà un début d’incorporation.
Je sais que le travail s’annonce comme une hantise («assombração»). Pourtant, ce qui apparaît devant moi a moins à voir avec le fantôme qu’avec l’algorithme. Non pas un algorithme abstrait, invisible, enfermé dans des codes, mais un corps algorithmique, un corps qui donne forme, dans l’espace off-line, aux instructions que le monde on-line dépose en lui, jour après jour. Ce qui s’incarne là n’est pas seulement une chorégraphie. C’est un régime d’attention. C’est une pédagogie de l’impulsion. C’est la grammaire motrice d’une génération qui a appris à exister parmi des commandes brèves, des réponses rapides et des circuits de répétition.
C’est peut-être pour cela qu’il y a dans cette présence quelque chose d’aussi précis. Il s’agit d’un corps jeune, né à l’ère numérique, et il est rare de voir avec une telle netteté la forme d’un corps dressé par le réseau. Non pas l’image idéalisée d’une jeunesse connectée, mais son résultat sensible. Un organisme dressé par des stimuli, fait d’interruptions, habitué à convertir la dispersion en geste. La scène, alors, n’offre pas une fuite hors du présent. Elle donne le présent sous une forme lisible. Et cela, aujourd’hui, c’est déjà beaucoup.
a s s o m b r a ç ã o
Ametonyo Silva
01.04.2026
"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra."
Carlos Drummond de Andrade
O que nos aguarda é uma cápsula cheia de fumaça, dois alto-falantes colocados frente a frente e uma música breve, com a duração exata de um post destinado à circulação e ao desaparecimento. A música parece fabricada por máquina, feita dessa matéria eletrônica que já não anuncia apenas um aparelho, mas um modo de reconhecimento. Sons que confirmam de que mundo se faz parte. Quem os escuta sabe, sem precisar pensar, que habita o mesmo mundo técnico. Talvez esteja aí um signo nítido do presente, de uma época em que até o estímulo já nos chega como lembrança de uma antiga excitação.
Entre um alto-falante e outro, há uma pessoa. De início, ela aparece quase como a pedra de Drummond, como aquela que interrompe o caminho apenas para, em seguida, se tornar o próprio caminho. Mas a comparação dura pouco. A pedra resiste por inércia. Este corpo, ao contrário, cede. Esse corpo se move porque algo o impele. Esse corpo se desgasta porque o tempo já não cai sobre ele como duração, mas como comando.
O que está diante de nós não tem nada de extraordinário, ao menos à primeira vista. Tênis, short, camiseta. Barba, cabelo comprido, pele branca. Parece um homem. De longe, o corpo se oferece como unidade. De perto, essa unidade falha. Outras unidades surgem. Muitos gestos, muitas inscrições, muitos detritos passam a disputar a imagem desse corpo. O olhar, então, já não reconhece uma figura, mas um campo de sinais.
Ele salta. Salta segundo o tempo que a música lhe concede. Salta dentro da medida exata do compasso, como se o corpo tivesse aceitado, por um instante, a administração externa de sua energia. Vai de um lado a outro. Mas não se trata de ida e volta, como num percurso que terminasse onde começou. Trata-se de ir e vir até que o próprio esquema entre direita e esquerda se revele insuficiente. O trajeto estéreo, imposto pelas caixas de som, organiza o espaço; o corpo, porém, cedo ou tarde, cai fora. E quando isso acontece, já não assistimos a um movimento obediente, mas ao aparecimento de uma saída. A própria saída.
A pessoa abandona a linha, transborda a cápsula, continua a saltar. Alguns saltam com ela. Uns por dentro, na própria memória muscular. Outros, de fato, se movem. Não tanto quanto ela, mas o bastante para que o espetáculo deixe de ser simples observação e passe a operar como contágio. A cena não se limita a mostrar um corpo, ela redistribui impulsos entre quem vê e aquilo que é visto. Toda recepção, aqui, já é um começo de incorporação.
Sei que o trabalho se anuncia como assombração. Ainda assim, o que aparece diante de mim tem menos a ver com o fantasma do que com o algoritmo. Não um algoritmo abstrato, invisível, encerrado em códigos, mas um corpo algorítmico, um corpo que dá forma, no espaço off-line, às instruções que o mundo on-line deposita nele dia após dia. O que se encarna ali não é somente uma coreografia. É um regime de atenção. É uma pedagogia do impulso. É a gramática motora de uma geração que aprendeu a existir entre comandos breves, respostas rápidas e circuitos de repetição.
Talvez seja por isso que haja algo de tão preciso nessa presença. Trata-se de um corpo jovem, nascido na era digital, e é raro ver com tanta nitidez a forma de um corpo treinado pela rede. Não a imagem idealizada da juventude conectada, mas seu resultado sensível. Um organismo treinado por estímulos, feito de interrupções, habituado a converter dispersão em gesto. O palco, então, não oferece uma fuga ao presente. Oferece o presente sob forma legível. E isso, hoje, já é o bastante.